A rodovial federal que 'levou' a covid-19 para o interior de Pernambuco

Depois de atingir Recife, o coronavírus caminha para cidades do agreste e do sertão pernambucano. A maior parte delas está próxima ou é cortada pela rodovia federal BR-232, e esse fenômeno não é mera coincidência.

A rodovial federal que 'levou' a covid-19 para o interior de Pernambuco
Foto: Google Street View / BBC News Brasil

Em Pernambuco, a proliferação de casos do covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, tem diariamemte percorrido o caminho em direção ao interior do estado.

Mas, pelo menos por hora, o vírus segue uma rota em particular: ele afeta principalmente cidades próximas ou cortadas por uma importante rodovia federal, a BR-232.

O trajeto da doença por essa estrada não é uma mera coincidência, segundo pesquisadores que têm analisado a disseminação do vírus no estado.

A rota do coronavírus pelo interior de Pernambuco segue uma lógica econômica, social e logística. As primeiras infecções surgiram no Recife no início de março, em bairros de classe média alta, como Boa Viagem e Jaqueira  até hoje eles ainda são os mais afetados em números absolutos.

"Recife tem um aeroporto internacional. A covid-19 apareceu primeiro nos hospitais particulares, com pacientes que haviam acabado de chegar da Europa", explica Jones Albuquerque, pesquisador do Instituto para Redução de Riscos e Desastres de Pernambuco (IRRD-PE), órgão ligado às universidades federais de Pernamcubo (UFPE e UFRPE) e que têm feito análises diárias sobre o cenário da doença.

Depois, o vírus se espalhou para áreas mais pobres e municípios da região metropolitana  em boa parte, ele pode ter chegado nesses pontos por meio de pessoas que trabalham em bairros ricos e moram na periferia.

Agora, uma segunda onda atinge o estado: a interiorização do covid-19 para cidades pequenas e médias do início do sertão e do agreste pernambucano, como Arcoverde e Caruaru.

A maioria dos municípios com novos casos nas últimas semanas, ainda que estejam poucos em números absolutos, está localizada no entorno da BR-232.

A rodovia federal, que tem 552 quilômetros de extensão, corta Pernambuco do litoral ao sertão  do Recife à cidade de Parnamirim , embora a estrada continue com outro nome, PE-316, até o município de Araripina, na divisa com o Piauí.

A BR-232 é o nosso grande distribuidor de coronavírus", diz Albuquerque.

Pesquisadores e médicos apontam dois cenários que podem ter influenciado a essa interiorização. O primeiro diz respeito a uma característica social do estado.

As classes mais abastadas do Recife têm casas de veraneio em cidades do interior que são cortadas pela BR-232, ou estão próximas a ela", explica o médico José Luiz de Lima Filho, diretor do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika), da UFPE.

"Então, há esse trânsito de pessoas que saem do Recife para essas cidades no fim de semana ou feriados. Se algumas delas estavam infectados, mesmo que por assintomáticos, podem ter levado o vírus paras os municípios menores e passado para outras pessoas", diz Lima Filho.

Segundo os pesquisadores, outro fator que pode ter contribuído foi a suspensão das aulas de todas as universidades do Recife  públicas e particulares , no dia 8 de março. Boa parte desses estudantes vem do interior e, sem aulas, eles voltam para as suas cidades de origem.

A suspensão foi uma ótima medida, pois ocorreu bem no início dos casos no estado. Se isso não tivesse acorrido, é provável que mais alunos tivessem se infectado, o que aumentaria mais os casos e a capacidade de transmissão da doença", diz Albuquerque.

 

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